15 novembro 2015

O futuro

Vejo-me nua sem ti, eras como a roupa que ocupava o meu corpo há uns minutos atrás, quente e aconchegante, mas partiste e contigo levas-te o meu dia. Hoje, a noite já não me chama mais à atenção, o dia são apenas horas que correm enquanto eu fico aqui a esperar saber de novo o que é sentir a noite nas minhas veias. Durmo sozinha mas contigo gravado nos traços do meu lençol amarrotado, tapo-me mas sem me tapar, o frio passa nas ranhuras da monotonia da minha alma, grito e ninguém ouve, grito para tu não ouvires mas grito para tu vires.
não faço sentido mas a tua partida também não fez, mais uma vez nos encontramos em sintonia; pergunto, porque é que me deixaste?
As manhãs sabem a amargura e já não sinto o cheiro a paixão traiçoeira que pairava no ar, o sabor do vinho doce mas amargo a dose perfeita, nos copos de cristal, aqueles que hoje são apenas vidros lascados pelo tempo, como nós sabes? fomos levados pelo tempo, amor onde estás? procuro-te e vejo-te, mas já não me conheces, passas por mim e destróis os meus passos com a tua indiferença, matas-me com o teu olhar desviado, o teu olhar de conhecido passageiro. passas pelas ruas onde um dia nos amámos mas já sem saberes que lá, entre dias e noites nos apaixonamos e pintamos os muros de amor puro. amor, ainda te lembras de não te lembrar?
conhecia cada traço do teu corpo, cada sinal e onde tocar para te desviar a atenção para um sitio sem destino, sabias onde me tocar e deixavas que os corpos, inocentes, se envolvessem em situações sem inocência, fases de horas que traziam horas de fases, tocavas-me como se cada vez fosse a primeira e no primeiro dia de cada semana tocavas-me como se fosse o último; arrepiavas a minha pele e entre toques arrepiavas-te, riamos juntos e felizes, riamos juntos, éramos felizes. amor, ainda tens o mesmo toque?
As páginas que marquei dos livros que me ofereceste hoje são poesia que um dia me deixaste, palavras que um dia gastaste, que compraste para me mostrar que era aquilo que querias dizer-me; nunca tiveste muito jeito para palavras de amor, mas aquelas que me dizias citadas por outrem eram as que me aqueciam a alma. amor, ainda te lembras delas?
acredita, eu sou a mesma mas estou diferente, lembra-te apenas dos pedaços que levaste contigo, guarda-os bem, mesmo que te tenhas esquecido quem te os deixou, quem te os ofereceu. eu ainda tenho os teus, espero pelo dia em que os procurarás e os reencontrarás em mim. amor, ainda te lembras do que eras?
O silêncio está agora no teu lugar; a saudade(?) agora guardada, tentei desprende-la de mim só para não me lembrar tanto de ti, deixei-a na cómoda onde guardei cada pedaço teu, cada camisola tua, cada prenda, memória, onde te guardei. amor, vejo-te todos os dias, abraço-te todos os dias, afinal estás mesmo aqui ao meu lado....escrevo apenas que num futuro desconhecido, a tua partida não fará sentido...e aí perguntarei, porque é que me deixaste?

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